Quais profissões serão menos impactadas pela IA? Estudos apontam áreas mais protegidas

A popularização de ferramentas de inteligência artificial generativa, como o ChatGPT, reacendeu o medo de substituição em massa de trabalhadores. No entanto, estudos de instituições como o World Economic Forum (WEF), OCDE e McKinsey indicam um cenário mais complexo: a tendência é de transformação de funções, e não de extinção em larga escala.

O Future of Jobs Report do WEF estima que cerca de 60% dos empregos atuais terão parte de suas tarefas automatizadas, mas apenas uma fração pequena está em risco de automação total. A conclusão é que o conteúdo dos cargos muda — muitas vezes de forma profunda —, enquanto o emprego em si é redesenhado.

“O que acontece é uma redistribuição de tarefas: atividades repetitivas, previsíveis e baseadas em padrões conhecidos são automatizadas, enquanto os humanos se concentram nas exceções, no julgamento contextual e na supervisão estratégica”, explica Tonimar Dal Aba, gerente técnico da ManageEngine Brasil.

 

Do operacional ao estratégico

A leitura é corroborada por Sylvestre Mergulhão, CEO da Impulso, empresa de People Tech especializada em produtividade:
“O que eu vejo no dia a dia não são pessoas sendo substituídas, e sim funções sendo redesenhadas. A parte mecânica do trabalho encolhe. A parte decisória cresce. Quem operava passa a supervisionar. Quem executava passa a interpretar.”

Casos como o do setor bancário, frequentemente citados em análises do WEF e de consultorias internacionais, mostram esse deslocamento: a automação de transações rotineiras não eliminou bancários, mas deslocou o foco para atendimento consultivo e relacionamento com clientes.

O mesmo vale para contadores e radiologistas. Estudos compilados pelo WEF e pela McKinsey mostram que, nessas áreas, sistemas de IA assumem parte das tarefas repetitivas, enquanto o profissional passa a atuar com mais ênfase em interpretação, aconselhamento e tomada de decisão em casos complexos.

 

O que torna uma profissão mais resistente

Pesquisas da OCDE sobre risco de automação, alinhadas ao Future of Jobs Report, apontam três fatores centrais que tornam uma carreira menos vulnerável:

  • Inteligência social complexa – leitura de contexto emocional, negociação de interesses e construção de confiança.
  • Criatividade estratégica – capacidade de combinar ideias de domínios distintos para resolver problemas inéditos, algo em que a IA ainda encontra limites.
  • Julgamento ético e responsabilidade – decisões em Direito, saúde, governo e gestão corporativa envolvem consequências sociais e morais de longo prazo.

“A IA pode apoiar esses processos, mas não substitui o julgamento humano”, afirma Julio Viana, gerente regional do GitHub no Brasil.

Mergulhão resume: “Se o trabalho cabe inteiro numa planilha ou num fluxo fechado, a IA aprende rápido. Profissões menos suscetíveis à automação exigem leitura de contexto, decisão sob incerteza e responsabilidade sobre impacto humano”.

 

(foto: Produção FAP NEWS)

Pesquisas da OCDE sobre risco de automação, alinhadas ao Future of Jobs Report, apontam três fatores centrais que tornam uma carreira menos vulnerável:

  • Inteligência social complexa – leitura de contexto emocional, negociação de interesses e construção de confiança.
  • Criatividade estratégica – capacidade de combinar ideias de domínios distintos para resolver problemas inéditos, algo em que a IA ainda encontra limites.
  • Julgamento ético e responsabilidade – decisões em Direito, saúde, governo e gestão corporativa envolvem consequências sociais e morais de longo prazo.

“A IA pode apoiar esses processos, mas não substitui o julgamento humano”, afirma Julio Viana, gerente regional do GitHub no Brasil.

Mergulhão resume: “Se o trabalho cabe inteiro numa planilha ou num fluxo fechado, a IA aprende rápido. Profissões menos suscetíveis à automação exigem leitura de contexto, decisão sob incerteza e responsabilidade sobre impacto humano”.

 

Setores com menor risco no curto e médio prazo

Com base em relatórios do WEF, OCDE e consultorias globais, especialistas destacam alguns campos como menos suscetíveis à automação total nos próximos anos:

  • Saúde e cuidado humano – A IA avança em diagnósticos e análise de dados, mas o cuidado direto, o julgamento clínico em cenários de incerteza e a relação com o paciente seguem fortemente dependentes do fator humano.
  • Gestão de pessoas e RH – Ferramentas de IA já são usadas para triagem de currículos e rotinas administrativas, mas decisões sobre cultura, engajamento, liderança e conflitos continuam exigindo empatia. Levantamento do WallJobs aponta que 75% dos profissionais de RH já utilizam IA, em geral para tarefas operacionais.
  • Educação – Estudos sobre o futuro do trabalho indicam que o papel do professor se desloca da simples transmissão de conteúdo para mentoria, acompanhamento individual e desenvolvimento socioemocional, áreas consideradas de baixa automatização pela OCDE.
  • Trabalho artesanal e serviços de luxo – Em nichos como marcenaria de alto padrão, alta gastronomia e design de interiores de luxo, relatórios de mercado apontam aumento da valorização do “toque humano” e da história por trás do produto.
  • Gestão de crise e emergências – Bombeiros, equipes de resgate e gestores de crises corporativas atuam em ambientes imprevisíveis, em que o improviso qualificado e a decisão moral rápida ainda superam qualquer sistema automatizado.
  • Diplomacia e negociações complexas – Relações internacionais e mediações trabalhistas dependem de leitura política, construção de confiança e interpretação de intenções, dimensões consideradas de difícil codificação.
  • Áreas estratégicas em tecnologia – Mesmo no setor de software, relatórios da própria indústria indicam que a IA acelera a geração de código, mas reforça a demanda por funções como arquitetura de sistemas, segurança, governança de IA e gestão de riscos.

“Papéis ligados à arquitetura, governança de IA, segurança, produto e liderança técnica crescem em relevância — não por dominar ferramentas, mas por entender limites, riscos e consequências”, pontua Mergulhão.

 

Mitos, economia e “efeito Jevons”

Especialistas alertam para alguns equívocos recorrentes no debate público. O primeiro é confundir viabilidade técnica com viabilidade econômica. “Há muitas atividades que podem ser automatizadas, mas isso não significa que serão”, afirma Dal Aba. A automação em escala, lembram estudos do WEF e da McKinsey, só se consolida quando o custo total da tecnologia é menor que o custo humano.

Outro erro é tratar profissões como blocos homogêneos. “Quando se afirma que uma profissão vai acabar, desconsidera-se que parte significativa do trabalho continuará exigindo julgamento humano, interação social e tomada de decisão contextual”, observa Henrique Calandra, fundador do WallJobs e autor de Inteligência Artificial Generativa para Iniciantes.

Dal Aba também cita o efeito Jevons, um conceito econômico segundo o qual ganhos de eficiência tendem a aumentar a demanda. Na saúde, por exemplo, diagnósticos mais rápidos e baratos podem ampliar o consumo de serviços, estimulando áreas como saúde preventiva e medicina personalizada — com criação de novos tipos de trabalho.

 

Novas funções em alta

Relatórios recentes do WEF e da McKinsey indicam que o avanço da IA estimula o surgimento de novas ocupações, como:

  • curadores de dados e dados sintéticos;
  • auditores e especialistas em governança e ética em IA;
  • profissionais de “desautomação”, que identificam etapas onde o retorno ao processo humano é mais vantajoso.

Calandra chama atenção ainda para o crescimento das profissões híbridas, que fazem a ponte entre tecnologia e negócio: “Em um cenário onde a IA redefine rotinas, o valor humano migra para a capacidade de conduzir a requalificação das equipes, promover a adaptação cultural e exercer o julgamento final em situações de alta ambiguidade”.

 

Mais do que proteger empregos, redefinir o trabalho

Em síntese, os principais relatórios internacionais e especialistas convergem em um ponto: o risco não está apenas em qual profissão você exerce, mas em quais tarefas você realiza dentro dela. Atividades altamente repetitivas tendem a ser automatizadas; aquelas baseadas em empatia, contexto, criatividade e responsabilidade seguem, por ora, sob forte domínio humano.

Em vez de perguntar se um cargo “vai acabar”, a direção sugerida por estudos como o Future of Jobs Report é outra:
como combinar IA e habilidades humanas avançadas para aumentar a relevância do trabalho — e não perdê-lo?

 

Fontes institucionais e relatórios
  1. World Economic Forum (WEF)
    • Future of Jobs Report (edições recentes – ex.: 2020, 2023, 2025).
    • Tema principal: impacto da automação e da IA sobre tarefas e ocupações, percentuais de empregos com partes automatizáveis, criação e transformação de funções.
    • Site: World Economic Forum – Future of Jobs
  2. OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico)
    • Estudos sobre “risk of automation” e futuro do trabalho.
    • Tema principal: análise de quais tipos de tarefas são mais suscetíveis à automação, impacto sobre profissões em diferentes países, ênfase em habilidades socioemocionais e cognitivas complexas.
    • Site: OECD – Future of Work
  3. McKinsey Global Institute
    • Relatórios sobre automação, IA e mercado de trabalho (por exemplo, estudos sobre “Jobs lost, jobs gained” e impactos da IA generativa em trabalho do conhecimento).
    • Tema principal: redistribuição de tarefas, potencial de automação por setor, efeitos em produtividade e criação de novas ocupações.
    • Site: McKinsey Global Institute

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