Pesquisas da OCDE sobre risco de automação, alinhadas ao Future of Jobs Report, apontam três fatores centrais que tornam uma carreira menos vulnerável:
- Inteligência social complexa – leitura de contexto emocional, negociação de interesses e construção de confiança.
- Criatividade estratégica – capacidade de combinar ideias de domínios distintos para resolver problemas inéditos, algo em que a IA ainda encontra limites.
- Julgamento ético e responsabilidade – decisões em Direito, saúde, governo e gestão corporativa envolvem consequências sociais e morais de longo prazo.
“A IA pode apoiar esses processos, mas não substitui o julgamento humano”, afirma Julio Viana, gerente regional do GitHub no Brasil.
Mergulhão resume: “Se o trabalho cabe inteiro numa planilha ou num fluxo fechado, a IA aprende rápido. Profissões menos suscetíveis à automação exigem leitura de contexto, decisão sob incerteza e responsabilidade sobre impacto humano”.
Setores com menor risco no curto e médio prazo
Com base em relatórios do WEF, OCDE e consultorias globais, especialistas destacam alguns campos como menos suscetíveis à automação total nos próximos anos:
- Saúde e cuidado humano – A IA avança em diagnósticos e análise de dados, mas o cuidado direto, o julgamento clínico em cenários de incerteza e a relação com o paciente seguem fortemente dependentes do fator humano.
- Gestão de pessoas e RH – Ferramentas de IA já são usadas para triagem de currículos e rotinas administrativas, mas decisões sobre cultura, engajamento, liderança e conflitos continuam exigindo empatia. Levantamento do WallJobs aponta que 75% dos profissionais de RH já utilizam IA, em geral para tarefas operacionais.
- Educação – Estudos sobre o futuro do trabalho indicam que o papel do professor se desloca da simples transmissão de conteúdo para mentoria, acompanhamento individual e desenvolvimento socioemocional, áreas consideradas de baixa automatização pela OCDE.
- Trabalho artesanal e serviços de luxo – Em nichos como marcenaria de alto padrão, alta gastronomia e design de interiores de luxo, relatórios de mercado apontam aumento da valorização do “toque humano” e da história por trás do produto.
- Gestão de crise e emergências – Bombeiros, equipes de resgate e gestores de crises corporativas atuam em ambientes imprevisíveis, em que o improviso qualificado e a decisão moral rápida ainda superam qualquer sistema automatizado.
- Diplomacia e negociações complexas – Relações internacionais e mediações trabalhistas dependem de leitura política, construção de confiança e interpretação de intenções, dimensões consideradas de difícil codificação.
- Áreas estratégicas em tecnologia – Mesmo no setor de software, relatórios da própria indústria indicam que a IA acelera a geração de código, mas reforça a demanda por funções como arquitetura de sistemas, segurança, governança de IA e gestão de riscos.
“Papéis ligados à arquitetura, governança de IA, segurança, produto e liderança técnica crescem em relevância — não por dominar ferramentas, mas por entender limites, riscos e consequências”, pontua Mergulhão.
Mitos, economia e “efeito Jevons”
Especialistas alertam para alguns equívocos recorrentes no debate público. O primeiro é confundir viabilidade técnica com viabilidade econômica. “Há muitas atividades que podem ser automatizadas, mas isso não significa que serão”, afirma Dal Aba. A automação em escala, lembram estudos do WEF e da McKinsey, só se consolida quando o custo total da tecnologia é menor que o custo humano.
Outro erro é tratar profissões como blocos homogêneos. “Quando se afirma que uma profissão vai acabar, desconsidera-se que parte significativa do trabalho continuará exigindo julgamento humano, interação social e tomada de decisão contextual”, observa Henrique Calandra, fundador do WallJobs e autor de Inteligência Artificial Generativa para Iniciantes.
Dal Aba também cita o efeito Jevons, um conceito econômico segundo o qual ganhos de eficiência tendem a aumentar a demanda. Na saúde, por exemplo, diagnósticos mais rápidos e baratos podem ampliar o consumo de serviços, estimulando áreas como saúde preventiva e medicina personalizada — com criação de novos tipos de trabalho.
Novas funções em alta
Relatórios recentes do WEF e da McKinsey indicam que o avanço da IA estimula o surgimento de novas ocupações, como:
- curadores de dados e dados sintéticos;
- auditores e especialistas em governança e ética em IA;
- profissionais de “desautomação”, que identificam etapas onde o retorno ao processo humano é mais vantajoso.
Calandra chama atenção ainda para o crescimento das profissões híbridas, que fazem a ponte entre tecnologia e negócio: “Em um cenário onde a IA redefine rotinas, o valor humano migra para a capacidade de conduzir a requalificação das equipes, promover a adaptação cultural e exercer o julgamento final em situações de alta ambiguidade”.
Mais do que proteger empregos, redefinir o trabalho
Em síntese, os principais relatórios internacionais e especialistas convergem em um ponto: o risco não está apenas em qual profissão você exerce, mas em quais tarefas você realiza dentro dela. Atividades altamente repetitivas tendem a ser automatizadas; aquelas baseadas em empatia, contexto, criatividade e responsabilidade seguem, por ora, sob forte domínio humano.
Em vez de perguntar se um cargo “vai acabar”, a direção sugerida por estudos como o Future of Jobs Report é outra:
como combinar IA e habilidades humanas avançadas para aumentar a relevância do trabalho — e não perdê-lo?
Fontes institucionais e relatórios
World Economic Forum (WEF)
Future of Jobs Report (edições recentes – ex.: 2020, 2023, 2025).
Tema principal: impacto da automação e da IA sobre tarefas e ocupações, percentuais de empregos com partes automatizáveis, criação e transformação de funções.
OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico)
Estudos sobre “risk of automation” e futuro do trabalho.
Tema principal: análise de quais tipos de tarefas são mais suscetíveis à automação, impacto sobre profissões em diferentes países, ênfase em habilidades socioemocionais e cognitivas complexas.
McKinsey Global Institute
Relatórios sobre automação, IA e mercado de trabalho (por exemplo, estudos sobre “Jobs lost, jobs gained” e impactos da IA generativa em trabalho do conhecimento).
Tema principal: redistribuição de tarefas, potencial de automação por setor, efeitos em produtividade e criação de novas ocupações.