Em pleno 2026, enquanto a inteligência artificial domina editores de imagem, filtros em tempo real e câmeras de smartphones cada vez mais “inteligentes”, um movimento inesperado tomou conta do mercado de tecnologia e do entretenimento visual: as câmeras digitais antigas e aparelhos limitados voltaram à moda — e estão vendendo como nunca. No centro dessa tendência está a viral Kodak Charmera, símbolo de uma geração cansada de algoritmos que decidem tudo.
Nas redes sociais, a Charmera virou ícone de um estilo de fotografia “imperfeita por escolha”. Em vez de sensores ultrapotentes e IA que suaviza pele, corrige enquadramento e escolhe o “melhor momento” automaticamente, o usuário volta a lidar com limitações bem claras: resolução modesta, ruído em ambientes escuros, cores menos “perfeitas” e quase nenhuma opção de edição dentro do dispositivo. O resultado, porém, tem agradado justamente por parecer mais humano, espontâneo e imprevisível.
Especialistas em cultura digital apontam que essa “revolta contra o algoritmo” é também uma reação ao excesso de curadoria automatizada. Em apps modernos, fotos passam por várias camadas de processamento: IA remove objetos indesejados, ajusta rostos, altera céu, aplica nitidez seletiva. Ao final, muitas imagens diferentes acabam com a mesma “cara de filtro perfeito”. Com as câmeras retrô, a lógica se inverte: a pessoa aceita o erro, o desfoque e o enquadramento torto como parte da memória.
Para o mercado, o fenômeno tem impacto real. Lojas de eletrônicos e marketplaces registram aumento na procura por câmeras compactas antigas, modelos “point and shoot” e até celulares mais simples, que entregam fotos com aparência dos anos 2000. A Kodak Charmera, em especial, ganhou status de objeto de desejo entre influenciadores, criadores de conteúdo e jovens que querem se diferenciar da estética polida do feed tradicional.
Do ponto de vista tecnológico, a tendência não representa uma rejeição total à IA, mas um pedido de freio. Muitos dos usuários da Charmera continuam usando aplicativos modernos, mas escolhem onde querem a intervenção do algoritmo. Em vez de deixar a máquina decidir tudo, optam por um processo híbrido: capturam de forma simples e “crua”, e só depois fazem edições leves — quando e se quiserem.
Para a comunidade acadêmica e criativa da FAP, esse movimento abre espaço para debates importantes:
Experiência x automação: até que ponto a automação tira do usuário a sensação de autoria?
Estética da imperfeição: por que fotos mais granuladas e “erradas” estão sendo vistas como mais autênticas?
Design de produtos: como criar tecnologias que ofereçam recursos avançados sem roubar completamente o controle do usuário?
Mais do que uma nostalgia vazia, a onda das câmeras retrô e da Kodak Charmera parece ser um recado claro da nova geração: é possível admirar o poder da IA — mas ainda há muito valor em apertar o botão, errar o clique e guardar a foto exatamente como ela aconteceu.